quinta-feira, maio 05, 2005

o pecado do exagero

"Capão pecado" do brasileiro Ferréz, editado recentemente pela Palavra, foi uma das minhas maiores decepções, desde que mergulhei na actual literatura brasileira.
as referências eram muitas e boas, contudo, este retrato de uma das favelas mais emblemáticas da zona sul de S. Paulo, não consegue superar as expectativas, nem tão pouco aproximar-se delas.
Ferréz é apresentado como um autor da geração hip-hop, aliás "Capão Pecado" seria uma espécie de primeiro romance hip-hop, mas falha os objectivos.
a escrita sai das vielas e becos da favela, crua e malandra. Os personagens são tão malandros quanto as falas que ensaiam, entre umas e outras.
mas Ferréz, ao contrário de outros autores como Paulo Lins, Drauzio Varella e Caco Barcellos, falha ao apresentar uma teoria da desculpabilização da malandragem. Ferréz apresenta os malandros, mas os malandros são sempre vítimas de uma sociedade que não os poupa. Os criminosos, são vítimas da economia, da história, da política, mas nunca deles mesmos.
"Capão Pecado" é um relato de conversas entre jovens com moral apertada e inflexível. os jovens favelados discutem a necessidade que sentem de se aplicar nos estudos para vencer na vida, como fazem os "playboys". existirão por certo muitos jovens de enorme valor que sofrem na pele a discriminação provocada por uma vida na favela, uma vida de exclusão. mas se o pecado mora naqueles que medem os esfavorecidos todos pela mesma bitola, considerando-os como incubadores do crime, também é certo que o pecado também mora nas certezas de quem apregoa que só há crime porque os favelados não têm oportunidades na vida.
ao contrário da "Cidade de Deus", "Capão Pecado" é um exercício profundamente ingénuo e literáriamente muito desinteressante.