segunda-feira, agosto 01, 2005

o desejo

"Como uma vasta rede de pesca a abarrotar de sardinhas, o céu arqueava-se em abóbada por cima dos centauros, brilhante de estrelas. Diogo expeliu uma lufada de ar; nele, sempre sinal de que qualquer clique interior o libertava de tensões acumuladas. Desde que primeiro se apercebera da existência, ali na sala, daquelas criaturas, mudara várias vezes de atitude em realção a elas. O terror infantil - face às caras hirsutas, aos troncos musculosos, aos flancos equinos, ás labaredas que jaculavam das tochas - haveria de dar lugar, anos mais tarde, a leve repulsa. Depois, progressivamente, a repulsa foi-se transformando em curiosidade. Agora era escusado negá-lo. Era mesmo fascínio."

Frederico Lourenço, "A Formosa Pintura do Mundo", Livros Cotovia, 2005

Para muitos, Frederico Lourenço não passará de uma nota apensa à tradução da Odisseia e da Íliada. Para outros, bem menos, é o responsável pelo contacto com o mundo grego, com as narrativas fundadoras, com os heróis, com as viagens.
Mas há ainda o Frederico Lourenço original e singular. Há o tradutor do desejo, o navegador dos impulsos do corpo, o poeta de uma Laura contemporânea.
Fredrico é o escritor de vidas solitárias, de amores e desejos impossíveis. "A Formosa Pintura do Mundo" é um conjunto de painéis sobre o encantamento pelo outro. Tal como Petrarca amava a sua Laura inatingível, também os homens e mulheres destes e outros tempos repetem essa devoção sem medida.
Para aqueles que não conheceram o amor, as narrativas de Frederico Lourença não passam de curtas tragédias de gente inconsolável. Para os que foram atingidos na medula da alma, estas são as únicas histórias que contam. Porque Amar Acaba, no exacto momento em que o desejo se cumpre.

"Se amor não é qual é este sentimento?
Mas se é amor, por Deus, que cousa é a tal?
Se boa por que tem ação mortal?
Se má por que é tão doce o seu tormento?

Se eu ardo por querer por que o lamento?
Se sem querer o lamentar que val?
Ó viva morte, ó deleitoso mal,
Tanto podes sem meu consentimento.

E se eu consito sem razão pranteio.
A tão contrário vento em frágil barca,
Eu vou para o alto mar e sem governo.

É tão grave de error, de ciência é parca
Que eu mesmo não sei bem o que eu anseio
E tremo em pleno estio e ardo no inverno."

Petrarca, Rimas